O laicato paulistano: formas e presenças no período pré-conciliar

Adailton Maciel Augusto*

  • Introdução

O tema deste capítulo insere-se no contexto da construção de identidade católico-romana em São Paulo entre os anos de 1917 e 1959 . Nosso enfoque central é destacar, neste cenário, a força dinamizadora do laicato no acontecer da Igreja cristã católica. Cremos que a cidade de São Paulo sirva como uma referência bem dinâmica deste jeito da Igreja mostrar-se num cenário de dúvidas, de reconfigurações de linguagens e de modelos evangelizadores. Os sujeitos primeiros de nossa análise são leigos e leigas assentados e cooptados a um jeito de ser igreja que buscava afirmar o “domínio de Cristo” sobre todos os aspectos da vida, inclusive os sociais e políticos . Nossa metodologia é histórico-compreensiva, dando destaque à dialética de interesses que sustentaram formas e presenças destes atores e atrizes. Leigos e leigas são vistos como membros essenciais ao modelo de Igreja em vigência, ou seja, a imagem da igreja como “ corpo místico” . Nossas considerações foram criadas partindo de três fontes básicas: o “Boletim Eclesiástico” ( órgão oficial da Arquidiocese de São Paulo ), Jornal

Doutor em Ciências Sociais e Religião e Mestre em História da Igreja. Membro da Associação dos Cientistas Sociais da Religião no Mercosul, da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) e da Sociedade Paul Tillich do Brasil. Atua como professor no Curso de Teologia do Instituto São Paulo de Estudos Superiores. No presente momento, realiza pesquisa de pós-doutoramento com a temática: O Método Comparativo de Roger Bastide. Pressupostos para uma Episteme do Sagrado no Campo Religioso Contemporâneo.
Ano de promulgação por Bento XV do Código de Direito Canônico preparado por Pio X. Ano do primeiro anúncio da idéia de se convocar um Concílio que, posteriormente, seria denominadoVaticano II.

'F. T. Londoño (org.), Paróquia e Comunidade no Brasil: perspectiva histórica, pp. 05-19. J. Hermann, “História das Religiões e Religiosidades”. In: C. F. Cardoso & R. Vainfas. Domínios da História. Ensaios de Teoria e Metodologia, pp. 329-352.' Lembramos que a Encíclica Mystici corporis, publicada em 1943 por Pio XII, retomava de modo direto a doutrina, a compreensão de Igreja como”corpo místico de Cristo” buscando a superação da idéia de Igreja como “sociedade”. Nossa pesquisa compreende o período que vai de 1906 a 1955.

“Legionário” ( importante fonte não oficial da Arquidiocese mas que revela bastante o perfil da presença laical em construção) e o Jornal “ O São Paulo” . Para facilitar na compreensão do texto, utilizaremos a imagem de preparação de uma mesa para a refeição. Cito: a busca dos ingredientes , a preparação da mesa e mesa posta.

Buscando os ingredientes Cremos que ao esboçar uma reflexão sobre a construção da presença da Igreja Católica em São Paulo, destacando o laicato, nas décadas que antecedem o Concílio Vaticano II, devemos partir da centralidade da questão Igreja e Sociedade que tomava conta das discussões para dentro ou para fora do cenário eclesial-eclesiástico. Como sugere Riolando Azzi, o período que vai de meados do século XIX a meados do século XX, mais explicitamente 1840-1962, deve ser compreendido como o período de romanização da Igreja do Brasil. Sua sugestão ganha conotação interessante pelo fato de, justamente, buscar distinguir ou colocar em evidência o modelo eclesial que está sendo implantado e o antecedente modelo que vigorou no período colonial.

Em meados do século XIX, o modelo de Igreja-cristandade passa a ser progressivamente substituído pelo novo modelo eclesial, de inspiração tipicamente tridentina, reforçado em seguida pelo ultramontanismo do Concílio Vaticano I: a Igreja passa a ser considerada como uma sociedade hierárquica perfeita, cujo funcionamento se realiza em modo paralelo ao Estado, devendo manter ambos, Igreja e Estado, uma mútua colaboração.

O que se busca implantar no Brasil é um modelo de Igreja pautado na centralização tridentina( o dogma, a cristologia, a eclesiologia e a moral) e no antiliberalismo visto como inimigo desestruturador da ordem e da hierarquização.

Partindo deste pressuposto, logo de início, uma questão se nos apresenta: qual era o cenário(ethos) da atuação católica e os caminhos escolhidos na relação com tal cenário? Várias são as frentes que se mostravam como problema, ameaça ou dilema para as ambições católicas: digamos que o espírito da “era das revoluções” , que naquele contexto, mostrava-se efervescente como nunca, seja elemento central para se entender os movimentos de ação-reação da igreja católica . A “era das revoluções” tocava basicamente o todo da vida humana: o plano econômico-social e o plano político-ideológico. Utilizando categorias que denotem melhor o contexto: o plano micro-estrutural e plano macro-estrutural. Em síntese: o problema estava na nova sociedade emergente e no modo como a igreja e o fiel católico devia se postar ante tal sociedade. Era uma questão sócio-religiosa. Sendo assim, o dilema estaria no modus operandi que a instituição assumiria ante tal cenário. A questão social, após Leão XIII, permaneceu como preocupação constante de seus sucessores. Talvez o dilema estivesse no modo escolhido para se tratar questões nascidas no seio da vida social. No convívio com a nova ordem social que gestou-se no movimento renascentista, a postura católica era de ceticismo puro. Cinco fontes básicas já resumiam desde a metade do século XIX a posição católica: a Mirari Vos, a Quanta Cura, o Syllabus Errorum , o Vaticano I o Código de Direito Canônico de 1917. Torna-se muito importante notar o quão presentes estarão, de forma direta ou indireta, na vida da igreja, e em sua doutrinação do, sobre e para o laicato, as quatro fontes citadas acima. Elas serão até o Vaticano II os suportes máximos reguladores da fidelidade-ação do laicato. Lentamente, verificou-se também um grande despertar do laicato, sobretudo a partir do apelo de Pio XI, para uma participação ativa dos leigos no apostolado hierárquico, através da “ação católica”. Não se admitia uma concepção de laicato ativo autônomo e livre. A compreensão de ação laical estava sempre vinculada ao ministério hierárquico. Urgências de evangelização fizeram com que gradualmente o laicato assumisse lugar de destaque na busca de afirmação de uma sociedade concebida como católica.

Mas, afinal, como tal contexto confirmou-se, sedimentou-se, ou melhor, criou raízes em São Paulo nos anos que antecederam o Vaticano II ? Na base de toda a questão devemos citar o processo de romanização e o movimento reformador paroquializante. O que se percebe é a substituição de uma prática religiosa tida como sincrética, supersticiosa e incontrolável por uma prática sacramental que propiciaria um controle maior do crente.Talvez, aqui, um questionamento possa aparecer: qual a metodologia utilizada pela Igreja romana para fazer valer seu intento? José Manuel Castillo nos adverte:

Com a romanização das práticas religiosas se quer incorporar `a vida religiosa do povo, com discursos pouco persuasivos, tentando despertar o medo e a culpabilidade, o sacramento do matrimônio, a extrema unção, a obrigação da prática dominical da missa, a confissão. Intensificam-se nesse período as missões populares realizadas por religiosos estrangeiros, com uma mentalidade que os fazia incapazes de compreender as reticências das populações a essas novas obrigações religiosas.

Romanizar é implementar um modelo de sociedade cuja teia de relações fundam-se unicamente nos princípios católicos . O caminho passa pelo re-ordenamento da vida social que se desviou do reto sentido. A dinâmica para se construir o caminho passa por uma hierarquia forte aliada, talvez por não haver saída, de um laicato fiel e combativo . Lembrando, sim, o espírito das Cruzadas medievais. Mas não teremos católicos fortes se os mesmos permanecerem com sua religiosidade duvidosa. Vamos aparar as arestas. Esta será a característica primeira para o estabelecimento de um catolicismo laical no Brasil romanizado. E São Paulo não está fora da regra: entre os de 1920 e 1960 o predomínio é de uma igreja hierarquizada aliada de um laicato reformado, fiel e combativo. Torna-se primordial a restauração de um catolicismo influente e ordenador. Para tal intento, quatro linhas de ação serão articuladas: a fundação da AEC ( Associação dos Educadores Católicos); incentivo à fundação de Faculdades e Universidades Católicas; movimento de apologia da doutrina católica através de sua ampla rede de editoras e de publicações; combate ao comunismo e estímulo a práticas assistencialistas ( a mais comum no período eram os vicentinos) .

No plano da dimensão político-social lembramos, aqui as palavras exortativas do Pe Leonel Franca:

(...)Se um candidato não figura na lista da LEC não pode ser votado pelos católicos em cabeça de chapa.(... ) O católico que dá seu voto ao Partido Comunista é um renegado.

Dirigindo-se ao eleitorado paulista na mesma ocasião, assim se expressa:

Não vote nos candidatos proibidos pela LEC e aconselhe os outros a que também não o façam.

No plano da dimensão estritamente religiosa encontramos exortações constantes de Antônio de Castro Mayer direcionando os passos das instituições leigas.

  • Preparando a mesa

O movimento da reforma católica, a cuja frente estão o arcebispo da Bahia D. Romualdo Antonio Seixas, o bispo de Mariana D. Viçoso, o bispo de São Paulo D. Antonio Joaquim de Melo e o bispo do Pará D. Macedo Costa, visa de modo especial a reforma do clero mediante a instituição dos seminários, os retiros espirituais e as visitas pastorais. Estas, por sua vez, unidas à pregação das santas missões , constituem o meio de restauração, recriação da vida católica no meio do povo. Antes, numa posição de defensiva e introspectiva, agora a Igreja assume uma atitude de conquista espiritual do mundo dessacralizado. Os bispos reformadores, com sua mentalidade ultramontana e hierarquizante, não suportavam a autonomia das instituições leigas nascidas no Brasil colonial, imperial e mesmo republicano . Menos ainda suas posturas regalistas, suas atividades políticas de corte liberal, que entravam em confronto com os interesses e os objetivos da hierarquia. O bispo e o padre em diferentes graus, são, pela sua participação sacramental da mediação de Jesus Cristo, os verdadeiros mediadores da vida de Deus. São os únicos que podem ministrar as graças divinas ao povo, com exceção do batismo, que pode também ser administrado por leigos em casos especiais. O sobrenatural, o sagrado, não está acessível, de forma direta e livre, ao católico leigo, caminhante nesta terra e errante que necessita de direção. Segundo Castillo esta teologia oficial sobre os sacramentos “vai enfrentar e marginalizar as mediações e os mediadores da religiosidade popular leiga. Os vigários tentam fazer o povo substituir sua prática religiosa, seus sacramentais pelos sacramentos que são celebrados por ele, normalmente na paróquia. O lugar privilegiado da comunicação da vida de Deus ao povo é a igreja matriz, a paróquia.” O que se percebe é a substituição de uma prática religiosa sincrética por uma prática sacramental.Talvez uma segunda questão possa aparecer: qual a metodologia utilizada pela Igreja romano-paroquial para fazer valer seu intento? A resposta é simples: um catolicismo privado e submisso aliado do controle das consciências. O contato com o povo da vida comum dava-se via sacramental e nas pregações de forte teor moral.

Essa pregação popular se faz em base acentuadamente moralista, dando ênfase as verdades eternas do pecado, da morte e do inferno, e visando a reforma dos costumes entre o povo. Aliás, prática já comum e incorporada à metodologia católica no trato com o povo e com suas crenças . Outro instrumento da reforma além da difusão de novas devoções está na instituição de novas associações religiosas. Sob a influência dos jesuítas propagam-se as Congregações Marianas, as Filhas de Maria e o Apostolado da Oração. Em diversos lugares fundam-se as Conferências Vicentinas para o atendimento dos pobres. A devoção do mês mariano é difundida pelos lazaristas e capuchinhos, assim como se introduz o costume do catecismo as crianças, fora da missa paroquial, e das festas solenes de primeira comunhão.Volta a ser propagada, agora com progressiva aceitação, a festa e devoção do Coração de Jesus. Aqui vale destacar a construção em São Paulo do Templo do Coração de Jesus, que o bispo D. Lino queria que tivesse o esplendor de Montmartre na França. A mentalidade que domina a reforma está na necessidade de se criar no Brasil uma nova Igreja, de caráter apostólico Romano e sob a inspiração tridentina, em substituição a Igreja luso-brasileira, do período colonial e imperial, dominada pelo Padroado. A Revolução de 1930 marca o fim da República Velha no Brasil, e o país entra numa nova fase. Até então a exploração da terra constituíra a base econômica da nação, através das diversas fases . Já nas últimas décadas do império, com o Barão de Mauá, houvera uma primeira tentativa de industrialização do país. Mas este processo somente será desencadeado com a era de Getúlio Vargas. A criação da siderúrgica de Volta Redonda, no início da década de 40, constitui talvez o marco inicial da progressiva arrancada da era industrial. São Paulo se torna uma metrópole industrial e, progressivamente, outras cidades vão tomando o mesmo rumo. Pela primeira vez na história do Brasil o eixo econômico se transfere do campo para cidade . As cidades tornam-se os centros de decisão da vida política e social. Neste contexto permanecem vivas as intenções de um catolicismo tridentino que se consolidara na época anterior. O IV Congresso Eucarístico Nacional realizado em São Paulo em setembro de 1942 por D. José Gaspar constitui uma das manifestações da força social do catolicismo . Neste contexto, o padre Agnelo Rossi enfatizava com veemência que para os males da época só existiam e bastavam dois caminhos: os Congressos Eucarísticos e a Ação Católica. Ao mesmo tempo em se afirma o poder do catolicismo na sociedade, também outras formas religiosas estão em plena expansão cresce a força do espiritismo, das religiões afro-brasileiras e do protestantismo em suas diversas denominações. Contra essas diversas formas religiosas atua a apologética católica com todo o vigor. Pe Leonel Franca e D. Agnelo Rossi distinguem-se na refutação do protestantismo e Frei Boaventura Kloppenburg na campanha contra espíritas e umbandistas. A ação dos chamados bispos reformadores pautou-se por restringir-se apenas a área especificamente religiosa, sem recorre ao poder política ou pressões sociais para efetuar a reforma desejada. Sua estratégia foi a de desvalorizar o catolicismo dos leigos, substituindo-o por um catolicismo romanizado. Isto foi feito principalmente por meio da substituição das devoções aos santos tradicionais ( como São Benedito, Santo Antonio, São José, São Sebastião, Santa Bárbara, as diversas denominações marianas. Por devoções em voga na Europa, especialmente as devoções marianas e a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, na época em grande florescimento na Europa, inclusive servindo como instrumentos de luta contra o modernismo e o liberalismo anticlerical. Aqui desempenham papel de grande importância as novas congregações religiosas, que tratam de difundir suas devoções próprias ( como os salesianos e a devoção a N.S. das Graças, os Redentoristas e a Devoção a N. S. do Perpétuo Socorro, São Geraldo Magella e Santo Afonso), fazendo que os “novos” santos ocupassem o lugar dos tradicionais. O efeito prático deste trabalho religioso é a desestruturação das antigas irmandades e confrarias voltadas para os santos tradicionais, e sua substituição por novas organizações leigas, voltadas para a devoção aos impostos “novos” santos. Neste ponto , a introdução da devoção ao Sagrado Coração de Jesus assume grande importância porque ela vai se efetivar através de um novo organismo leigo: o Apostolado da Oração, que se difunde com enorme rapidez na segunda metade do século XIX, seguindo passo a passo ação dos bispos reformadores. O Apostolado da Oração, bem como as outras associações religiosas para leigos, como a Pia Associação das Filhas de Maria , a Liga Católica, a Cruzada Eucarística, a Congregação Mariana e as Conferências Vicentinas – para citarmos as mais comuns – distinguem-se radicalmente das antigas irmandades e confrarias pela posição nelas ocupada pelos leigos. Embora sejam associações de leigos, sua direção está sempre diretamente subordinada ao vigário, que estatutariamente faz parte da diretoria e, de fato, tem sob seu controle as decisões concernentes à entidade. Quem desempenhou papel preponderante no acontecer da restauração católica foi o movimento da Ação Católica que é considerada o braço direito da hierarquia eclesíástica. A Ação Católica procura no laicato um sentido de presença ativa na sociedade, dentro de um espírito de ordem e disciplina eclesiástica. A função dos militantes católicos é manter-se numa linha de fidelidade absoluta a Santa Sé, cuja vontade é expressa através do episcopado. Segundo a mentalidade da época, esses movimentos leigos não são criados para a transformação social das estruturas, mas apenas para sua transformação espiritual. Enfim, o que se queria de um leigo católico era que ele fosse capaz de proclamar fé ( sem conotações “ desordeiras” ) permanecendo fiel às práticas religiosas. Digamos que as práticas laicais aconteciam destituídas de qualquer conotação que sugira estar fora dos horizontes oficiais propostos pela hierarquia. Aparecem as expressões “bom católico”, “católico fiel”, militante e amante da igreja. Personagem muito ilustrativo para tal compreensão encontramos no Conde José Vicente de Azevedo (1859 – 1944) que predominou e predomina como arquétipo de leigo militante e amante da Igreja.

Tal processo obteve sucesso valendo-se de uma técnica bem específica. Como sugere Cândido Procópio o que ocorreu foi a implantação de um processo de “internalização” do catolicismo. A cidade de São Paulo, sem dúvida alguma, foi um dos centros onde melhor se evidenciou tal perspectiva. Mas, afinal o que seria a “internalização”?

“ A internalização conscientiza valores inseridos na longa história do Cristianismo os quais passam a ter sentido renovado na experiência dos fiéis, cuja orientação de vida, funcional para a sociedade em processo de mudança, confirma os padrões valorativos e aguça a consciência de sua adequação e verdade. O processo de internalização ocorre no Brasil através de caminhos diversos. A conscientização de valores religiosos e seu significado para a vida humana dependem da situação concreta e da problemática em que estão envolvidos os grupos sociais. A estratificação social, as diferenças culturais e as peculiaridades profissionais constituem base existencial e sistemas de interesse que levam ‘a preferência por determinados valores. Ao transformar a vida religiosa em experiência profundamente significativa para as pessoas, o processo de internalização atende necessariamente a problemas e situações sociais concretos. As transformações sociais contemporâneas, ao redefinir estruturas e gerar novas tensões , criam condições para a emergência do Catolicismo internalizado no Brasil. Naturalmente, as diferentes situações de vida colocam objetivos sociais, econômicos e culturais distintos para várias camadas da população. A internalização do Catolicismo expressa-se portanto, através de linhas axiológicas diversas, correspondendo a diferentes formas de percepção da realidade e projetos de projetos de vida divergentes para a população brasileira .

Segundo Camargo podemos distinguir três funções do catolicismo internalizado: função de modernização, de contestação, tradicionalista. Elas não se excluem mutuamente e por meio delas a dimensão religiosa adquire, igualmente, novo significado e vitalidade. Sigamos a explicitação de cada função dada por Camargo:

A modernização representa o mais significativo aspecto de reavivamento católico. Deixando de constituir obstáculo ‘a mudança social, a religião passa ativamente a recomendar novos padrões e comportamento, legitimando dessa forma modos de viver modernos. A função contestatória, pondo em questão a compatibilidade entre as exigências da ética cristã e situações humanas ligadas à estrutura sócio-econômica do país, coloca em plano axiológico prioritário a necessidade de profundas alterações na organização social O Catolicismo denominado tradicionalista tende a valorizar a religião e a sociedade do passado, idealizadas como perfeitas. Essa forma enfatiza, consequentemente, o retorno a modalidades tradicionais, “isentas da corrupção do presente” .

Os anos 50 marcam um momento divisor de atuações pois começa a surgir uma tensão dentro da Igreja, sobretudo nos setores mais ligados diretamente à esfera política e social, como os membros da JOC e da JUC. Na convivência com outros grupos políticos, começam a sentir dificuldades em difundir as posições conservadoras tradicionalmente mantidas e sustentadas pela Igreja. Assim, passam a preocupar-se com perspectivas de uma abertura para uma problemática social já pré-anunciando o modelo de igreja popular dos anos 70 e 80 do século passado . Considerando os grupos e as tensões vivenciadas, é importante notar que a dinâmica predominante na cidade de São Paulo entre 1917 e 1959 está intimamente relacionada com a tipologia sugerida acima por Cândido Procópio de Camargo. Este era o campo religioso católico em evidência: hierarquia = hierarquia, laicato = laicato, hierarquia X laicato, laicato X laicato. Uma certa tranqüilidade aparente mas que sugeria também a intranqüilidade das paixões e interesses.

  • A mesa está posta: a riqueza dos pratos

Este catolicismo internalizado produziu uma riqueza enorme de modos de apresentar-se ou compor a vida social entre os anos 20 e 50 do século passado. A seguir, elencamos de modo geral, e a titulo ilustrativo, um pouco desta fartura. Dividimos os modos de afirmação da presença católica em quatro grupos : Associações Religiosas, Fortalecimento de um sadio Ensino Religioso, a utilização da Boa Imprensa, a dinâmica da vida paroquial. O período em questão refere-se aos anos de 1917 a 1959. A tentativa é justificar a hipótese de que a ação laical estaria por demais submissa a valores clericais e hierarquizantes e, lentamente, com a Ação Católica Especializada nos anos 40 há uma abertura no campo de ação do laicato.

A) Associações Religiosas Apostolado do Coração de Jesus Apostolado da Oração Asilo da Divina Providência Asilo Santa Terezinha do Menino Jesus Associação Maria Santíssima de Casaluce Congregação Mariana . Nossa Senhora da Lapa e São Luiz Gonzaga Congregação Mariana – Vila Mariana Pia União das Servas de Jesus Sacerdote Recolhimento de N. S. da Luz Recolhimento de Santa Tereza Venerável Ordem Terceira do Carmo

B) Ensino Religioso

Colégio Santa Inês: Conselho das ex-alunas ( 1919-1951) Inspetoria Arquidiocesana nas Escolas: Centro de Assistência Social – Brás / Mooca ( relatório ) 1947-1954 Externato Teixeira Branco – Jardim Paulista Grupo Escolar Almirante Barroso – Jabaquara Grupo Escolar Imaculada Conceição – Bela Vista Grupos Escolar Oscar Thompson – Cambuci Grupo Escolar São José – Ipiranga Grupo Escolar Pereira Barreto – Lapa Grupo Escolar Manuel da Nóbrega – Freguesia do Ó

C) Imprensa

Liga da Boa Imprensa Jornal “ Gazeta do Povo” Jornal “O São Paulo”

D) Paróquias

Água Branca : São João Maria Vianney Conferência Vicentina Santa Filomena - 1945-1960

Barra Funda : Paróquia Santo Antônio Apostolado da Oração Seção Feminina – Atas 1914-1942

Bela Vista : Paróquia do Divino Espírito Santo Liga da Comunhão Reparadora Infantil

Belém : Paróquia de São José Liga Católica Jesus, Maria e José – 1925-1928

Brás : Paróquia Bom Jesus dos Matosinhos Apostolado da Oração – 1901-1975; Liga dos Associados do coração de Jesus Paróquia de São João Batista Casa Paroquial e Associações – 1935-1942

Cambucy (sic): Paróquia São Joaquim Sociedade Auxílio para o Agasalho dos pobres de Santo Antônio (1926-1928)

Itapecerica da Serra: Paróquia Nossa Senhora dos Prazeres Fábrica Paroquial ( 1944-1968)

Lapa: Paróquia Nossa Senhora da Lapa Apostolado da Oração ( 1916-1958) Associação da Doutrina Cristã ( Atas do Catecismo) 1939-1951 Círculo Operário Católico leão XIII 1917-1921 Congregação Mariana ( Atas do departamento de menores ) 1959-1962. Confraria do Rosário (atas) 1918-1926 Irmandade de Nossa Senhora do santo Rosário (1926-1930) Conferência de Nossa Senhora da lapa (1914-1956) Conferência de Santa Terezinha do Menino Jesus (a tas) 1930-1963 Conferência São Gabriel Dell’Addorata ( atas) 1924-1945 Conferência São Luiz – Rei da França (1917-1952) Cruzada Eucarística São Luiz Gonzaga ( Atas, Receita e Despesa) 1957-1966 Pia União das Filhas de Maria (atas) 1913-1946 Sociedade de São Vicente de Paulo (1931-1948)

Luz: Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora (1937-1953 )

Paraíso : Paróquia Nossa Senhora Generosa Dispensário Nossas Senhora de Lourdes (1934-1936)

Pari: Paróquia de Santo Antônio Pia União das Filhas de Maria – 1918-1925

Perdizes: Paróquia São Geraldo IV Congresso Eucarístico Nacional ( Atas da Comissão Paroquial) 1940-1942)

Santa Cecília: Paróquia de Santa Cecília Curso de Religião para Catequista (1936-1938)

Santo Amaro: Paróquia de Santo Amaro Apostolado da Oração (atas) 1912-1937) Confraria do Santo Rosário (1921-1938) Congregação Mariana (1928-1937) Irmandade São Miguel (1942-1953) Liga Católica Jesus, Maria e José ( 1925-1946) Pia União das Filhas de Maria (1909-1938)

Vila Califórnia : Paróquia Nossa Senhora das Graças Movimento Cívico Eleitoral (Assinaturas) (1963-1964)

Tucuruvi: Paróquia Menino Jesus Apostolado da Oração. Seção Masculina e Feminina – atas e caixa (1927-1975) Associação Católica Beneficente do Tucuruvi (1918-1923) Associação das Damas de Caridade : Chamadas 1933-1973; Pobres socorridos (1933-1975) Associação da Doutrina Cristã (1952-1954) Círculo Operário Paulistano – atas (1944-1958) Cruzada Eucarística – atas (1930-1937) Liga Católica Jesus, Maria e José – atas (1946-1972)

Campos Elíseos: paróquia Sagrado coração de Jesus Arquiconfraria da Guarda de Honra do Sagrado Coração de Jesus – atas (1901-1957) Associação Nossas Senhora de Lourdes (1921-1985) Conferência de Nossa Senhora do Carmo (1944-1947) Congregação Mariana de Nossa Senhora Aparecida e São José – atas ( 1935-1955) Pia União das Filhas de Maria ( Ex: Presença à adoração ao Santíssimo Sacramento (1939-1942)

Jardim América: Paróquia Senhor Bom Jesus Dos Passos Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos (1895-1912)

Santa Ifigênia: Paróquia Nossa Senhora da Conceição Fraternidade Eucarística (1934-1958)

Casa Verde: Paróquia São João Evangelista Apostolado da Oração Centro Operário Católico: masculino e feminino Conferência São João Evangelista Congregação Mariana Cruzada Eucarística Infantil Damas da Caridade Pia União Das Filhas de Maria

Belém: Paróquia São José Adoração Noturna Brasileira – atas (1931-1949) Apostolado da Oração Associações das Damas Associação das Damas da Caridade Associação de Nossa Senhora Aparecida Associação de Propagação da Fé Conferência de Nossa Senhora de Lourdes Conferência de Nossa Senhora Maria Santíssima da Fonte Conferência de São Benedito Conferência de São João de Deus Conferência de São José Conferência de São Miguel Arcanjo Congregação Mariana Irmandade do Santíssimo Sacramento Juventude Operária Católica Feminina – atas (1934-1946) Pia União das Filhas de Maria Filhas de Maria por Devoção

Ao fazermos uma análise qualitativa da presença laical, animando e dinamizando o acontecer de todos esses movimentos, poderíamos sintetizar da seguinte forma: a Igreja de São Paulo, predominantemente, funcionou entre 1917 e 1959, composta de Associações de Piedade, Catolicismo popular devocional e Ação Católica. Mesmo recluso ou ignorado, o Catolicismo popular devocional funcionou como princípio articulador–resistência daquela parcela da sociedade paulistana que não se adequava ou não encontrou espaço no cenário da ordenação proposta pela neocristandade. Para os novos tempos que se instauraram entre 1945 e 1968 , cada qual em seu lugar, as três tendências serviram como animadoras da fé católica e sua influência social. Ralph Della Cava faz uma análise interessante do período que estudamos neste artigo. Segundo ele as mudanças da Igreja no Brasil está ancorada nas estratégias utilizadas para enfrentar a perda do monopólio religioso . O intuito das estratégias seria o de conseguir privilégios e/ou sustentar a sus influência na sociedade. Ele considera três fases: de 1914 a 1930, de 1930 a 1945 e de 1945 a 1970. Heloísa Helena de Souza Martins, lendo Della Cava assim explica as três fases:

No primeiro período, a estratégia principal do Cardeal Leme foi a de formação de uma “intelligentsia” católica, a partir dos elementos de classe média alta que começavam, então, a compor as fileiras mais ativas da Igreja. Este esforço insere-se na preocupação da hierarquia de forçar o restabeleci da união Igreja-Estado, rompida pela República de 1889. No segundo período, a “Era Vargas”, a Igreja, através da ação decisiva de D. Leme, constituiu uma série de organizações de católicos leigos, com base no modelo europeu, como a Liga Eleitoral Católica (LEC), criada em 1932, a Ação Católica Brasileira ( ACB), criada em 1935, e os Círculos Operários católicos, criados em 1932. Contando com uma base de classe média, essas organizações constituíam-se em verdadeiros “grupos de interesse”, na medida em que procuravam atingir, indistintamente, a setores de todas as posições políticas e, principalmente, oferecer um apoio ao regime, em troca do reconhecimento da união entre nação e fé católica, bem como da concessão de alguns privilégios ( fundamentalmente, a proibição do divórcio, a educação religiosa sendo facultada nas escolas públicas e o financiamento, pelo Estado, de escolas, hospitais e seminários católicos). Foi no governo Vargas que se deu o restabelecimento de uma limitada união entre Igreja e Estado, e que a Igreja começou a se constituir em uma ‘forma social, absolutamente indispensável a processo político’(...). No terceiro período, Della Cava afirma que o grande esforço da Igreja se concentrou em manter a sua união entre as ‘mudanças globais’, que se processavam na sociedade brasileira. Para explicar este período, o autor recorre ao conceito de ‘mudança global’ e ‘crise da sociedade brasileira’ ”.

Entre os anos de 1940 e 1960, o que percebemos em São Paulo é toda uma nótavel manifestação de espírito de militância católica ao mesmo tempo que uma afirmação dependência por parte do clero. Ela é considerada como elemento articulador das organizações católicas já existentes. Nas dioceses há o incentivo para se criem as Confederações das Associações Católicas que “tem por fim unir e coordenar, para os objetivos gerais da AC, todas as associações e obras católicas existentes, as quais, sem prejuízo de sua autonomia e atividades particulares, são desde já consideradas associações ou obras aderentes da Ação Católica Brasileira”. Neste contexto, os movimentos leigos que vigoravam anteriormente são classificados como auxiliares da Ação Católica. Tal posição foi não poucas vezes geradora de tensões e conflitos como no caso das Congregações Marianas. Mas tais conflitos não ofuscaram o brilho e importância da Ação Católica para a vida Igreja de São Paulo. Ela introduziu elementos inovadores na dinâmica da vida Igreja.

A Ação Católica pretendia estabelecer uma ponte entre a esfera privada e esfera pública, entre o domínio do sagrado e o do profano... Os leigos, com um pé na instituição religiosa e com outro no mundo profano, mediante o trabalho, profissional, ocupam posição estratégica para estabelecer os primeiros contatos e implementar a presença da Igreja nestas áreas dessacralizadas.

O laicato paulistano encontrou na Ação Católica um instrumental de dinamização e fortalecimento da fé, algo que seria mais efetivo ainda após 1945 com a Ação Católica Especializada. A dinâmica da Ação Católica era tão peculiar que não há como não insistir na tese de que não se desvincula laicato paulistano ativo, consciente, da compreensão da presença da Ação Católica. Não que outros movimentos não mereçam destaque, o fato é que com a Ação Católica Especializada ocorre uma verdadeira revolução no campo religioso católico da época. A consciência cidadã que brotava dos militantes da AC seria, posteriormente, confirmada pelo lugar de destaque que alguns ex-militantes exerceriam futuramente no campo da política, da cultura e de testemunho da própria fé. A titulo ilustrativo cito, aqui, André Franco Montoro, José Tolosa de Oliveira Costa, Carlos Masargão, Alcides de Souza Marques e Oscar Amarante. Segundo Marina Bandeira, a consciência cristã social destes militantes brotava de um interesse pelo evangelho, somado com

o contínuo estudo dos documentos pontifícios, especialmente os sociais; a frequência aos sacramentos e às práticas litúrgicas, de preferência as renovadas. Outras características dessa ACB dos primeiros tempos é a dedicação à leitura de pensadores europeus, como Leon Bloy, Georges Bernanos, Jacques Maritain e Romano Guardini. O aprofundamento desses estudos e as leituras são facilitados pelo comparecimento em massa às numerosas conferências e cursos ministrados por autoridades eclesiásticas ou leigas(...”). Por fim, podemos realçar “a sua entranhada preocupação com a autenticidade, o amor à verdade e a sua expressão por meio de atos ou palavras. A preocupação com a autenticidade, somada à profunda formação religiosa, e as constantes revisões de vida levam a ACB à maturação de uma mística que lhe permite superar, com altura, os desafios inevitáveis em qualquer movimento de vanguarda”

  • CONCLUSÃO

Chegamos ao final de uma tentativa arriscada de provocar interesse em nossos leitores na busca de se fazer memória da importância do laicato no processo de construção das formas e presenças no período pré-conciliar. Conforme o texto explicita, nosso intento não esteve fixo em personagens ou grandes fatos unicamente. Partindo da relação entre micro e marco história, objetivamos apresentar muito mais o amadurecimento consciente das formas e presenças. Por exemplo, não é possível imaginar em tal período uma dissociação simples e ingênua do fator ideológico e político pois o modelo de Igreja vigente exigia uma atuação política dos fiéis católicos . Nossa contribuição principal foi a constatação da presença enorme de movimentos e organizações que por mais ortodoxas que algumas parecessem foram sendo moldadas pelas contingências econômico-sociais, políticas e ideológicas. Como um olhar atento no “Boletim Eclesiástico”, órgão oficial da Arquidiocese durante toda a metade do século passado, foi capaz de confirmar nossa hipótese. Um segundo aspecto a ser ressaltado no período em questão foi a consciência assumida, por parte da hierarquia do quão necessário se mostrava a contribuição do laicato como dinamizador das opções da Igreja, mesmo que as opções tenham sido impostas pela mesma. Por fim resta a certeza de como tal período influenciou por demais os novos modelos de ação laical que floresceriam com a Igreja Povo de Deus do Vaticano II.

Fontes e Bibliografia

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  • A IGREJA DE SÃO PAULO Presença católica na história da cidade

este é um livro escrito por um grupo de Autores que faz um resgate da da história da Igreja de São Paulo

  • Organizadores

MARIA ANGELA VILHEMA e JOÃO DÉCIO PASSOS PAULINAS

  • Atores

  • Adailton Maciel Augusto
  • Alípio Casali
  • Angelo Ademir Mezzari
  • Antônio Aparecido da Silva
  • Augustin Wernet
  • Carlos Josaphat
  • Cesar Augusto dos Santos
  • Edênio Valle
  • Edson G. P. O. Silva
  • Fernando Altemayer Júnior
  • Iris Kantor
  • Luis Augusto Bicalho Hehl
  • Luiz Antonio de Souza Amaral
  • Luiz Eduardo Wanderley
  • Maria da Conceição dos Santos
  • Maria Stela Santos Graciani
  • Ney de Souza
  • Paulo Suess
  • Pedro Luiz Stringhini
  • Riolando Azzi
  • Tarcísio Justino Loro
  • Vera Toledo Piza.

O CNLB Sul I Parabeniza os Autores, Organizadores e a Editora Paulinas por esta maravilhosa edição.


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