A Constituição Gaudium et Spes»: pistas para uma pastoral urbana
Dentre as reflexões da 68ª Assembléia dos Bispos do Regional Sul 1, destacamos ainda o artigo do monsenhor Tarcísio, que trata da Constituição Pastoral «Gaudium et Spes». Este ano celebra-se o quadragésimo aniversário da Constituição pastoral do Concílio Vaticano II «Gaudium et spes». "Gaudium et Spes" foi o último documento promulgado pelo Concílio Vaticano II, em 7 de dezembro de 1965. Preparada no decorrer do Concílio, as sugestões para o seu texto foram reunidas, num primeiro momento, em cerca de 830 páginas entregues a um grupo encarregado de selecionar as idéias, organizá-las e redigir o texto final. Alguns peritos do Concilio achavam que não seria possível concluir o documento pela quantidade de emendas e sugestões que recebeu. O estresse para sua elaboração teria mesmo feito adoecer a primeira equipe de redação. A "Gaudium et Spes" foi escrita, primeiro, em francês, numa língua moderna, no que fugiu ao costume da Igreja de elaborar seus documentos em latim. Afinal, diversas equipes, várias redações e discussões de idéias foram necessárias para se chegar ao texto atual. Segundo consta, o então Cardeal Karol Wojtila, o Papa João Paulo II, participou ativamente das discussões sobre o documento e teria influenciado para que fosse denominado Constituição Pastoral. Pela primeira vez na história da Igreja, um texto sobre pastoral recebeu o nome de Constituição, uma novidade que causou admiração, uma vez que o termo costumava ser reservado a documentos de doutrina universalmente válida, como dogmática e liturgia. À medida que faz incidir princípios doutrinais, universalmente válidos, sobre realidades em transformação, aponta para a vocação da Igreja de se relacionar com o mundo e com a sociedade, com base na fé em Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida. A "Gaudium et Spes" se volta para a realidade e para o ser humano, a fim de compreendê-lo mais e de colaborar para que seus sonhos se realizem à luz do Evangelho de Jesus Cristo. Sua repercussão na vida da humanidade se faz a partir de uma leitura diferenciada do mundo, fundada nas "alegrias e esperanças" de homens e mulheres de nosso tempo. Esta metodologia demonstra que se deve elaborar a pastoral urbana a partir da compreensão da realidade. Neste documento, aparecem os sinais de autoconsciência e de abertura da Igreja para a adoção de paradigmas pastorais fundados no diálogo, na cooperação, no aprendizado mútuo e na troca de experiências. Assim como o diálogo pressupõe dois interlocutores, a estrutura do texto da "Gaudium et Spes" é construída em duas partes que buscam dialogar entre si. No Proêmio, a Constituição introduz o leitor no tema da união íntima da Igreja com todos os povos, que são os destinatários da Constituição, e situa o ser humano no centro de suas atenções. A seguir, na primeira parte, apresenta a doutrina sobre o homem, a vocação humana, Jesus Cristo e a Igreja, como um repertório temático adotado para estabelecer um diálogo com toda a humanidade. Na segunda parte, volta-se para alguns temas mais urgentes da atualidade, o matrimônio e a família, o progresso cultural, a vida econômico-social, a comunidade política, a promoção da paz, sem perder de vista os princípios estabelecidos na primeira parte. De fato, a "Gaudium et Spes" é o documento do diálogo entre a Igreja e o mundo. Nele, a Igreja assume a postura de interlocutor, explicita seu desejo de dialogar com todos e se volta para destinatários universais. Dirige a palavra não somente aos batizados e aos que invocam o nome de Cristo, mas a todos os homens (2), a "toda a família humana" (3), "crentes e não crentes" (21), "aqueles que se opõem a Igreja" (92), "os adversários" (28), "o mundo e os homens de todas as opiniões" (43). Podemos dizer que a "Gaudium et Spes" é para a Igreja um instrumento desencadeador de um diálogo permanente com a humanidade. Esta novidade do receptor é uma originalidade a favor do diálogo. Pela primeira vez numa Constituição, a Igreja se dirige a todos, crentes e não-crentes, reflete sobre seus grandes problemas, e lhes apresenta Cristo como a chave de solução dos problemas humanos. "O Concílio reunido por Cristo, dando testemunho e expondo a fé do povo de Deus, manifesta sua união, atenção e amor para com toda a família humana em que se acha inserido. A melhor maneira de fazê-lo é abrir um diálogo com todos os seres humanos a respeito de problemas comuns, à luz do Evangelho e a serviço do gênero humano, com as forças salutares que, conduzida pelo Espírito Santo, a Igreja recebeu de seu fundador" (GS 3,b). Para dialogar com o mundo, a Igreja busca assumir as atitudes e posturas desejadas pela "Gaudium et Spes": superação da concepção de "sociedade perfeita", em direção a uma Igreja comunidade, inserida no mundo, a serviço do Reino; humildade, para aprender do mundo e com o mundo; acolhimento, pois, em lugar de condenar, quer compreender, ir ao encontro, buscar a reconciliação; conhecimento da realidade, com seus valores, e reconhecimento da autonomia das instituições. No mundo pluralista em que vivemos, a Igreja é uma instituição no seio da sociedade, comprometida com o desenvolvimento humano e espiritual. Entende a "Gaudium et Spes" que a melhor forma de apresentar Jesus Cristo ao mundo é utilizar o diálogo, para fazer fluir a verdade sobre Jesus Cristo e seu reino. A pastoral urbana deve se espelhar nos princípios da "Gaudium et Spes", os quais são uma forma de reatualizar os ensinamentos e a prática de Jesus. Neste sentido, a finalidade da pastoral urbana é anunciar Jesus e os ensinamentos da Igreja nos espaços impregnados por diferentes culturas, ideologias, crenças e valores. Como fez o Apóstolo Paulo em Atenas, o Deus da vida deve ser sempre anunciado.
A pastoral urbana deve partir da valorização da pessoa e propor a experiência cristã em clima de liberdade. A cidade é o lugar da mudança, da dinâmica, da pluralidade. E este é, talvez, o maior desafio para a ação pastoral da Igreja, pois somos frutos de uma cultura teológica baseada na estabilidade, na segurança, na certeza, na verdade, no dogma. Ao lado disso, ainda estamos baseados no parâmetro da Igreja rural, em que a religião tinha o controle da vida social, moral, econômica e política. O homem da cidade vai para onde se sente bem e nisto se configura uma outra característica desafiadora para a Igreja: a dificuldade de adesão a uma paróquia ou a uma atividade pastoral. O agente de pastoral deve amar a cidade, a qual possui valores que a Igreja não pode desprezar. Entre estes estão os recursos tecnológicos e midiáticos, que permitem a comunicação em larga escala. A pastoral urbana deve ser missionária, isto é, seus agentes devem ir ao encontro das pessoas lá onde elas se encontram, nos shoppings, no mundo do trabalho, do lazer, da cultura, nas praças, nas ruas, nas associações, nos conjuntos habitacionais, nas periferias. Será uma pastoral itinerante, aberta, eregrina, não fechada nos escritórios pastorais. Espera-se que esteja articulada com os diversos segmentos sociais organizados, pois nenhum grupo isolado consegue atender as necessidades da vida na cidade. A Igreja deve aprender a trabalhar em rede com outros setores da sociedade. É preciso, também, entender o jeito da cidade, sem atitudes "moralistas", compreender sua linguagem e seus símbolos, tendo como ponto de referência as coisas produzidas pelo homem. Para atingir os corações das pessoas, deve provocar mudanças a serviço da vida, como fez Jesus, que disse "Eu vim para que todos tenham vida" (Jo 10,10). A pastoral urbana deve criar e alimentar uma mística própria da cidade, baseada na fé autêntica, na Palavra de Deus, para que toda a cidade seja evangelizada. É preciso acolher os que sofrem na cidade, espaço da concentração dos pobres e excluídos, sejam eles jovens, adultos, anciãos, mendigos, enfermos... Uma paróquia mais extrovertida, que rompe com esquemas burocráticos desnecessários torna-se um verdadeiro pólo de acolhimento, atendimento e irradiação do Evangelho. Isto implica mudar a programação paroquial tradicional, criar atendimentos em horários nos quais os trabalhadores possam ir até ela, como, por exemplo, em horários de folga e de almoço... Criar, ainda, atendimentos especiais com psicólogos e advogados. Há muitos profissionais que se dispõem a prestar um serviço deste tipo, por algumas horas durante a semana. Criar grupos de leigos capazes de utilizar os meios de comunicação para evangelizar, criar escolas ministeriais, promover conferências sobre temas urgentes. Além disso, valorizar a pastoral ambiental, nos hospitais, nas universidades e nos meios políticos, manter diálogo com os líderes da sociedade, estar presente nas universidades, acompanhar a ação política, desenvolver os ministérios de acolhimento dos migrantes e turistas.
Mons. Tarcísio Justino Loro
