Projetos da Vida

Era uma vez um riacho de águas cristalinas, muito bonito, que serpenteava entre as montanhas.

Em certo ponto de seu percurso, notou que à sua frente havia um pântano imundo, por onde deveria passar.

Olhou, então, para Deus e protestou: "Senhor, que castigo! Eu sou um riacho tão límpido, tão formoso, e você me obriga a atravessar um pântano sujo como esse! Como faço agora?"

Deus respondeu: "Isso depende da sua maneira de encarar o pântano. Se ficar com medo, você vai diminuir o ritmo de seu curso, dará voltas e, inevitavelmente, acabará misturando suas águas com as do pântano, o que o tornará igual a ele. Mas, se você o enfrentar com velocidade, com força, com decisão, suas águas se espalharão sobre ele, a umidade as transformará em gotas que formarão nuvens, e o vento levará essas nuvens em direção ao oceano. Aí você se transformará em mar".

Assim é a vida.

As pessoas engatinham nas mudanças. Quando ficam assustadas, paralisadas, pesadas, tornam-se tensas e perdem a fluidez e a força.

É preciso entrar pra valer nos PROJETOS DA VIDA, ATÉ QUE O RIO SE TRANSFORME EM MAR.

Se uma pessoa passar a vida toda evitando sofrimento, também acabará evitando o prazer que a vida oferece. Há milhares de tesouros guardados em lugares onde precisamos ir para descobri-los. Há tesouros guardados numa praia deserta, numa noite estrelada, numa viagem inesperada, num salto de asa-delta...

O importante é ir ao encontro deles, ainda que isso exija uma boa dose de coragem e desprendimento.

Não procure o sofrimento. Mas, se ele fizer parte da conquista, enfrente-o e supere-o.

Arrisque, ouse, avance na vida.

Ela é uma aventura gratificante para quem tem coragem de arriscar."

Roberto Shinyashik

A LOUCURA DA CRUZ

O mês de março 2005 é assinalado pela celebração de Páscoa. Esta é a festa da vitória da Vida sobre a morte ou a festa da conversão da morte em canal para a Vida ou ainda a festa da recriação do ser humano ferido pelo pecado. Essa grandiosa realidade é expressa por um símbolo muito significativo para os cristãos: a cruz. Esta era no mundo pré-cristão o patíbulo da ignomínia, reservada aos escravos e ao rebutalho da sociedade. O crucificado era geralmente privado de sepultura e abandonado aos animais selvagens e às aves de rapina. Dizia Cícero que "a cruz era o suplício mais cruel e mais repugnante", e Sêneca a tachava de "poste infamante e sinal de vergonha". Pois bem; Deus Filho feito homem quis assumir o suplício da cruz. Ele, o Santo e Inocente... a fim de mudar-lhe o significado, pois fez da cruz o preâmbulo da ressurreição. Ele nada devia à morte; por isto atravessou a morte e reapareceu como nova criatura. Esta inversão dos significados podia parecer loucura aos olhos da razão, como aliás atesta um gráfico encontrado na colina do Palatino em Roma: é aí representado um homem em oração diante da imagem de um Crucificado com cabeça de burro; uma inscrição explicava: "Alexâmenos adora o seu Deus"... São Justino refere: "Os pagãos dizem que a nossa demência consiste em colocar um homem crucificado em segundo lugar, depois de Deus imutável e eterno, Deus criador do mundo" (Apologia 113,4). Os judeus pensavam do mesmo modo ao dizerem: "Colocais vossa esperança num homem que foi crucificado". Os cristãos, a princípio, sentiram o desconcerto provocado pela reviravolta. Não ousavam representar Cristo na cruz, mas ornavam-na com pedras preciosas e flores: tencionavam assim caracterizá-la como o trono em que reina o Senhor da glória. Observavam que a cruz estende sua haste vertical e seus braços na direção dos quatro pontos cardeais, de modo que S. Ireneu (f 202) podia escrever, aludindo a essa dimensão cósmica da Cruz: "O autor do mundo no plano invisível contém todas as coisas criadas e encontra-se gravado (em forma de cruz) em toda a criação" (Contra as Heresias V 18, 3). Ora todo cristão é chamado a carregar uma parcela da cruz de Cristo. É para desejar que a carregue em atitude de Páscoa, ciente de que está sendo acompanhado pelo Autor da Vida, que venceu a morte num duelo admirável. Lembre-se do Apóstolo São Paulo: vítima de achaques diversos, podia escrever, salientando o paradoxo ou a loucura da Cruz: "É na fraqueza (do homem) que a força (de Deus) manifesta todo o seu poder... Por isto eu me comprazo na fraqueza, nos opróbios, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por causa de Cristo. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte" (2Cor 12, 9s). Quem disto está convicto, jamais perde a alegria de Páscoa, pois sabe que é co-herdeiro com Cristo, é filho no FILHO bem-amado desde toda a eternidade!

Dom Estevão Bettencourt, OSB


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